Entre novas classificações, uma vindima europeia marcada pelas condições climáticas e reconhecimentos importantes para a gastronomia brasileira, a semana reuniu movimentos que ajudam a compreender o momento atual do vinho e da mesa. Na França, a Michelin ampliou sua presença no setor vinícola com uma classificação dedicada aos produtores de Bordeaux. Na Itália, a colheita avançou sob a atenção de um mercado internacional mais difícil. No Brasil, Jessica Trindade recebeu mais um prêmio de Chef do Ano, enquanto o Tuju conquistou reconhecimento internacional por sua hospitalidade. A pizza brasileira também ganhou espaço entre as melhores do mundo.
Michelin amplia sua presença no vinho
A Michelin avança sobre um território historicamente ocupado por classificações regionais, críticos e publicações especializadas. Bordeaux recebeu sua primeira seleção do sistema de “Grapes”, criado pela companhia para distinguir propriedades vinícolas segundo uma escala de uma a três uvas.
A seleção reúne 83 propriedades, das quais 62 receberam ao menos uma distinção. Nove alcançaram a classificação máxima de três uvas. Entre elas estão nomes como Château Lafite Rothschild, Château Montrose, Château Léoville Las Cases e Château d’Yquem.
A entrada da Michelin nesse mercado acrescenta uma nova camada ao complexo sistema de reputação do vinho francês. Em Bordeaux, onde classificações históricas ainda exercem influência comercial mais de um século depois de sua criação, a chegada de uma marca internacionalmente associada à gastronomia amplia também a disputa pela autoridade sobre o que merece ser considerado excepcional.
França enfrenta uma vindima menor
A produção francesa de vinho em 2026 é estimada em cerca de 34 milhões de hectolitros, volume 6% inferior ao de 2025 e 17% abaixo da média registrada entre 2021 e 2025. Seca e ondas de calor estão entre os fatores que comprometeram os rendimentos em diferentes regiões produtoras.
Os números colocam 2026 entre as menores colheitas francesas das últimas décadas e acrescentam mais um capítulo a uma discussão que deixou de envolver apenas o volume produzido. Datas de colheita, maturação das uvas, equilíbrio entre açúcar e acidez e preservação dos estilos tradicionais passaram a fazer parte de uma equação cada vez mais condicionada pelo clima.
Para regiões que construíram sua identidade ao longo de séculos sobre condições bastante específicas de cultivo, a sucessão de safras atípicas já começa a produzir consequências que ultrapassam uma única vindima.
Itália inicia a vindima diante de um mercado mais difícil
A colheita avança pelas principais regiões italianas enquanto produtores acompanham um cenário comercial menos previsível. Além da qualidade e do volume da safra, o comportamento das exportações tornou-se uma das preocupações de um país que permanece entre os maiores produtores de vinho do mundo.
Os espumantes italianos apresentaram um dos resultados positivos divulgados no período. As exportações alcançaram aproximadamente 1 bilhão de euros no primeiro semestre de 2026, ligeiramente acima do registrado no mesmo período do ano anterior.
O desempenho convive, entretanto, com uma desaceleração mais ampla do consumo internacional de vinho. A questão ultrapassa a safra de 2026 e coloca diante dos produtores italianos o mesmo desafio enfrentado por outras grandes regiões: adaptar produção, preço e comunicação a um mercado que passa por mudanças importantes.
Pompeia volta a colher uvas
A vindima italiana também produziu uma notícia distante das estatísticas de produção e exportação. Uvas voltaram a ser colhidas em Pompeia, dentro do trabalho de recuperação da viticultura no sítio arqueológico.
O vinho fazia parte da vida econômica e cotidiana da antiga cidade romana destruída pela erupção do Vesúvio em 79 d.C. Escavações permitiram identificar áreas utilizadas para o cultivo das videiras e reconstruir parte das práticas agrícolas existentes antes da erupção.
A retomada do cultivo estabelece uma ligação pouco comum entre arqueologia e viticultura. Em Pompeia, plantar e colher uvas deixa de ser apenas uma atividade agrícola e passa também a funcionar como instrumento de recuperação histórica.
Seis pizzarias brasileiras entre as 100 melhores do mundo
O Brasil conquistou uma presença importante no 50 Top Pizza World 2026, divulgado em Nápoles em 15 de setembro. Seis pizzarias brasileiras aparecem entre as cem primeiras posições do ranking mundial.
A Leggera Pizza Napoletana, de São Paulo, alcançou o 6º lugar, a melhor colocação brasileira. Na sequência aparecem QT Pizza Bar (17º), A Pizza da Mooca (41º), Unica (46º), Bento (70º) e Veridiana (75º).
A presença de seis estabelecimentos brasileiros acompanha a transformação da pizza produzida no país nos últimos anos, especialmente em São Paulo, com maior atenção à fermentação, origem das farinhas, temperatura dos fornos e técnicas associadas à tradição napolitana.
Mais do que a posição individual de cada casa, a quantidade de representantes entre os cem primeiros revela a consolidação de uma cena brasileira que já ocupa espaço relevante no circuito internacional da pizza.
Jessica Trindade é novamente Chef do Ano
Jessica Trindade foi escolhida Chef do Ano no Prêmio Rio Show de Gastronomia 2026, realizado em 18 de setembro durante o Rio Gastronomia, no Jockey Club Brasileiro. A premiação reuniu um conselho de 17 jurados e reconheceu profissionais e estabelecimentos em 18 categorias.
Responsável pelas cozinhas do Madame Olympe, Chez Claude e Cantina do Claude, Trindade divide com Claude Troisgros a criação do menu do Madame Olympe.
O reconhecimento sucede outra conquista importante em 2026. Em junho, ela já havia recebido o título de Chef do Ano pelo VEJA RIO Comer & Beber. A sequência de premiações coloca seu trabalho entre os destaques da atual temporada gastronômica carioca.
Na mesma edição do Rio Show, Juliana Magioli recebeu o prêmio de Chef Revelação. O Lasai venceu na categoria menu degustação, o Sud, O Pássaro Verde foi reconhecido em cozinha brasileira e o Ferro e Farinha, entre as pizzarias.
Tuju recebe prêmio internacional de hospitalidade
O restaurante Tuju, em São Paulo, recebeu o Art of Hospitality Award 2026, concedido pelo The World’s 50 Best Restaurants. O prêmio é dedicado especificamente ao serviço e à experiência proporcionada aos clientes, em vez de considerar apenas aquilo que chega ao prato.
Comandado pelo chef Ivan Ralston, o Tuju já havia recebido, em 2024, o equivalente latino-americano da premiação. O novo reconhecimento amplia a projeção internacional de uma casa que construiu parte de sua identidade na integração entre cozinha, serviço, arquitetura e experiência à mesa.
A distinção antecede a divulgação da lista anual do The World’s 50 Best Restaurants e é definida a partir das experiências consideradas excepcionais pelos integrantes da academia responsável pela votação.
Uvas dos Bálcãs ganham espaço
Variedades autóctones dos Bálcãs ganharam destaque no Decanter World Wine Awards 2026. Entre elas está a Plavac Mali, uma das principais castas tintas da Croácia, que conquistou pela primeira vez um Best in Show na competição. Foi a primeira vez da variedade nessa categoria, não a primeira participação da Croácia, que já havia obtido a distinção anteriormente.
Prokupac e Refošk também alcançaram medalhas Platinum. Os resultados acompanham um movimento observado em diferentes regiões produtoras: a recuperação e valorização de variedades locais como instrumento de diferenciação em um mercado internacional durante décadas dominado por um grupo relativamente pequeno de castas.
Para países com menor presença comercial no mercado global, essas uvas funcionam também como afirmação de identidade. Em vez de reproduzir modelos consolidados em Bordeaux, Borgonha ou Toscana, parte dessa produção procura justamente valorizar aquilo que dificilmente pode ser reproduzido fora de seu território.
Um mercado em transformação
Quando observadas em conjunto, as notícias da semana revelam um setor atravessado por movimentos que acontecem em velocidades diferentes.
A Michelin procura construir uma nova referência para a classificação de propriedades vinícolas enquanto regiões históricas enfrentam os efeitos de condições climáticas cada vez menos previsíveis. A Itália colhe uma nova safra ao mesmo tempo em que precisa olhar para um mercado internacional em transformação. Em Pompeia, uma videira volta a estabelecer uma ligação entre o vinho produzido hoje e uma história interrompida há quase dois mil anos.
Na gastronomia, o movimento também atravessa fronteiras. Seis pizzarias brasileiras ocupam posições entre as melhores do mundo, Jessica Trindade acumula reconhecimentos no Rio de Janeiro e o Tuju leva a hospitalidade brasileira novamente ao cenário internacional.
Entre Bordeaux, Pompeia, São Paulo e Rio de Janeiro, tradição e transformação já não parecem ocupar lados opostos da mesa. Hoje, avançam juntas.1
Fontes consultadas: Michelin Guide; Ministère de l’Agriculture de la France/Agreste; WineNews; 50 Top Pizza; CNN Brasil; Rio Show/Receitas Globo; VEJA RIO; The World’s 50 Best Restaurants; Decanter e Decanter World Wine Awards.
Informações consultadas e verificadas em 21 de setembro de 2026.


