Muito antes de a Califórnia transformar os Estados Unidos em uma potência do vinho, o primeiro grande embaixador da bebida vivia a milhares de quilômetros dali, às margens do Sena. Benjamin Franklin, um dos Pais Fundadores da República americana, fez da França não apenas o centro de sua atuação diplomática entre 1777 e 1785, mas também o endereço de uma das mais impressionantes adegas privadas de seu tempo.
Instalado no Hôtel de Valentinois, em Passy, então um elegante subúrbio de Paris, Franklin reuniu Bordeaux tintos e brancos, vinhos de alguns dos menores e mais prestigiados vinhedos da Borgonha, diferentes estilos de Champagne e fortificados da Espanha e de Portugal. Muitos desses rótulos já tinham idade considerável, como registrava o inventário de sua adega. Guardar vinhos para que o tempo completasse seu trabalho fazia parte da cultura dos grandes apreciadores da época.
O prestígio de Franklin entre os franceses ultrapassava a política. No terceiro aniversário da Declaração de Independência dos Estados Unidos, o economista e filósofo Abbé André Morellet escreveu uma canção em sua homenagem. O refrão convidava os presentes a erguer as taças e cantar por “nosso Benjamin”, um tratamento incomum para um diplomata estrangeiro e um retrato da proximidade entre franceses e americanos naquele momento histórico.
A letra celebrava o estadista, mas também o homem à mesa. Franklin aparecia como alguém capaz de negociar tratados durante o dia e apreciar um grande vinho à noite. Em uma época em que banquetes eram parte da diplomacia, comer e beber também ajudavam a construir alianças.
Morellet também reservou espaço para a ironia. Em um dos versos, escreveu que os americanos queriam a independência para poder beber vinhos franceses. Em outro, ridicularizou a culinária inglesa e sugeriu que permanecer sob influência britânica significaria trocar o vinho pelo chá. A provocação refletia a admiração que parte da elite intelectual americana nutria pela cultura francesa no fim do século XVIII.
Franklin transmitiria essa admiração ao seu sucessor na embaixada, Thomas Jefferson, outro apaixonado pelos vinhos franceses. Antes mesmo de existir uma vitivinicultura relevante nos Estados Unidos, o vinho já ocupava um espaço importante na formação cultural das elites da jovem República.
Nas décadas seguintes, esse vínculo perdeu força. O crescimento de outras bebidas e, principalmente, a Lei Seca interromperam por décadas o desenvolvimento da cultura do vinho no país. A tradição construída por Franklin e Jefferson permaneceu viva entre pequenos grupos de apreciadores, mas deixou de ocupar o lugar de destaque que havia conquistado nos primeiros anos da República.
Quando os Estados Unidos voltariam a ocupar uma posição relevante no mundo do vinho, já não seria como admiradores dos grandes rótulos franceses, mas como produtores capazes de disputar espaço entre os principais nomes da viticultura mundial. Antes de Napa Valley, porém, a história do vinho americano passou por uma adega em Paris.


