Champagne se prepara para iniciar oficialmente a colheita das uvas em 15 de agosto. Em algumas áreas mais quentes, como Montgueux, no departamento de Aube, a vindima poderá começar já no dia 10 de agosto, o que representaria o início mais precoce já registrado na história da região.
O dado, por si só, já chama atenção. Afinal, o recorde atual pertence à safra de 2020, cuja colheita começou oficialmente em 17 de agosto. Antes dela, a data mais antecipada havia sido registrada em 2003, em 18 de agosto. Nos dois casos, os produtores já tratavam aquelas safras como exceções.
A explicação para 2026 está em uma sequência incomum de eventos climáticos. O ciclo vegetativo começou antes do esperado, três fortes geadas na primavera destruíram, em média, 40% dos brotos das videiras e, na sequência, sucessivas ondas de calor aceleraram o amadurecimento das uvas. Em algumas áreas as perdas ficaram próximas de 25%, enquanto no departamento de Aisne chegaram a 85%.
Apesar das perdas, os produtores afirmam que os vinhedos apresentam excelente estado sanitário. Jean-Baptiste Lécaillon, chefe de cave da Louis Roederer, explica que os solos calcários de Champagne têm evitado o estresse hídrico, mesmo diante da seca. O desafio agora é outro: impedir que o açúcar aumente mais rapidamente do que os aromas e os compostos responsáveis pela complexidade do vinho conseguem amadurecer.
Jérôme Durand, diretor-geral da Canard-Duchêne, afirmou que a colheita deverá começar quase uma semana antes da safra passada, que já havia sido considerada muito precoce. A enóloga Cynthia Fossier acrescenta que, depois das geadas que reduziram cerca de 40% da produção, os cachos restantes ainda enfrentam o risco de queimaduras provocadas pelo excesso de calor.
A safra de 2026 tem sido comparada à de 2003. Naquele ano, Champagne também sofreu com geadas severas no início do ciclo e enfrentou um verão marcado por temperaturas extremas. A diferença é que aquilo que antes era tratado como uma exceção climática passa a fazer parte de uma sequência cada vez mais frequente de eventos extremos observados nas principais regiões produtoras do mundo.
As estimativas apontam que o rendimento natural dos vinhedos deverá ficar abaixo de 9.000 quilos por hectare, embora a produção ainda possa superar 290 milhões de garrafas, acima das 266 milhões comercializadas mundialmente em 2025. Caso as temperaturas caiam de forma significativa nas próximas semanas, o início oficial da vindima ainda poderá ser adiado para até 28 de agosto.
A história do vinho sempre foi escrita pela natureza. O que mudou é que ela passou a alterar o ritmo com uma velocidade que desafia até uma região acostumada a transformar regularidade em excelência.

