Basta lavar a taça depois de um uso em que foram depositados sobre ela diversos vinhos, de idades, formas, personalidades e gostos diferentes. Em poucos instantes, ela parece nova novamente, pronta para outro uso.
Não. Ela não estará nova outra vez.
Uma taça que foi usada nunca mais será uma taça nova. Ela pode estar limpa, distante dos ruídos, da sujeira e das entranhas dos vinhos que por ela passaram. Pode estar polida, brilhando sobre uma prateleira. Mas nova, ela nunca mais será.
Erra quem pensa que, por mais limpa e impecável que ela esteja, não guarda lembranças, marcas e vestígios de cada vinho que um dia habitou seu interior. Esses rastros permanecem nela com muito mais intensidade do que os nossos olhos são capazes de perceber. Nós enxergamos a superfície. Ela conhece a profundidade.
Nunca uma taça que foi usada voltará a ser a mesma taça. Ela carrega a memória daqueles vinhos brutos, amargos, excessivamente alcoólicos e até defeituosos. Guarda também a lembrança dos vinhos que trouxeram prazer, alegria e desejo. Conserva a memória daqueles que chegaram frios, mas aqueceram quem deles bebeu. Abriga até mesmo o silêncio daquele vinho que não deixou lembrança alguma. E também conserva a passagem daquele que serviu apenas para produzir uma embriaguez medíocre e leviana.
A taça carrega a vida que lhe foi imposta. Existe para receber aquilo que lhe depositam e entregar prazer a quem dela faz uso. Por mais que imaginemos que basta lavá-la para que recomece, ela nunca conhece o verdadeiro renovo. Torna-se uma construção de memórias de tudo aquilo que viveu, de tudo aquilo que lhe aconteceu, inclusive do que lhe foi imposto com descuido e sem respeito.
Ainda assim, permanece ali, pronta para ser preenchida outra vez por um prazer que sempre servirá a terceiros e nunca a ela.
Não imagine que a taça que vemos, impecavelmente polida sobre uma prateleira, seja uma taça nova. Acredite: ela é uma taça repleta de lembranças.
E que ela jamais precise se quebrar para negar aquilo que a preenche apenas para satisfazer o prazer dos outros, sem que exista qualquer sentido para si.
Respeitemos as taças. É delas que nasce o encontro entre o vinho e quem o bebe. É por meio delas que o prazer ganha forma, seja ele divino, humano ou profano.


