Pra mim, uma das experiências mais interessantes do vinho é a degustação às cegas. A taça chega servida. O rótulo permanece escondido. Ninguém sabe a uva, a safra, o produtor ou o preço. Existe apenas o vinho e a impressão que ele provoca.
A mesa começa a falar. Um encontra elegância. Outro percebe equilíbrio. Há quem enxergue complexidade onde o outro encontra simplicidade. Cada pessoa descreve aquilo que a taça desperta, livre da influência do nome estampado na garrafa. Durante alguns minutos, o vinho tem a rara oportunidade de ser apenas vinho.
Então o rótulo é revelado.
É nesse momento que a degustação deixa de falar do vinho e começa a falar de quem está sentado à mesa.
Um rótulo modesto costuma provocar sorrisos constrangidos depois de tantos elogios. Um grande vinho, daqueles que despertam admiração antes mesmo de ser aberto, às vezes decepciona exatamente porque ninguém sabia quem ele era. O interessante não está na taça. Está na facilidade com que revemos as nossas próprias convicções quando um nome aparece diante dos nossos olhos.
Nunca consegui assistir a essa cena de degustações às cegas sem pensar nos relacionamentos.
Toda pessoa chega à nossa vida às cegas. A primeira conversa, o primeiro jantar, o primeiro beijo. Em poucas horas, já começamos a escrever uma biografia inteira na cabeça. Atribuímos intenções, imaginamos virtudes, antecipamos defeitos. Construímos versões de alguém que ainda não teve tempo de se revelar.
O tempo faz um trabalho silencioso. Ele retira o rótulo que a nossa imaginação colou nas pessoas e apresenta outro, muito mais próximo da verdade. Alguns revelam uma beleza que não cabia na primeira impressão. Outros conservam um discurso impecável até que a convivência faça aparecer aquilo que nenhuma fotografia, nenhum perfil e nenhuma boa conversa conseguem esconder.
Não é por acaso que tantos encontros começam encantadores e terminam irreconhecíveis. O encanto quase sempre nasce das expectativas. A convivência nasce das revelações.
Vivemos cercados de informações das pessoas. Fotografias, vídeos, biografias, opiniões, preferências, rotinas… Mesmo assim, continuamos sem conhecer aquilo que realmente ela é.
As degustações às cegas podem nos ensinar muito mais do que apenas sobre vinhos. Elas revelam, principalmente, a forma como degustamos as pessoas que chegam à nossa vida. Assim como acontece com o vinho, podemos nos surpreender tanto com os nossos pré-julgamentos quanto com aquilo que as pessoas nos entregam no primeiro encontro.


