Lendo Donald Winnicott e sua ideia sobre a capacidade de estar só, me transporto para os momentos em que bebo vinho na companhia da minha solitude. E isso me leva a um pensamento: experimente beber um vinho sozinho quando, na verdade, você gostaria de estar bebendo com alguém.
Winnicott escreveu que estar só é uma capacidade. Parece simples até percebermos o paradoxo. Não se trata de isolamento, tampouco de aprender a não precisar de ninguém. Estar só, para ele, pertence a uma construção mais profunda da vida emocional. Existem pessoas que suportam uma casa vazia, uma mesa para um, uma noite inteira sem companhia e, ainda assim, não conseguem estar sós. Outras carregam consigo a presença de quem não está.
É por isso que beber vinho sozinho pode ser uma experiência tão reveladora. Você abre uma garrafa que gostaria de dividir. Escolhe a taça, serve o vinho e sabe exatamente quem gostaria que estivesse sentado à sua frente. A ausência tem nome, ainda que você não o pronuncie.
E então acontece uma coisa estranha: você bebe.
Não porque deixou de desejar aquela companhia. Não porque decidiu esquecê-la. Muito menos porque descobriu subitamente que não precisa de ninguém. Você bebe porque começa a compreender que desejar a presença de alguém e depender dessa presença são coisas diferentes.
Há uma espécie de maturidade nesse gesto que não tem nada de heroico. O vinho não ensina independência, não cura ausência e uma noite sozinho não transforma ninguém em alguém mais forte. Mas permanecer diante daquilo que se deseja, sem possuí-lo, diz alguma coisa sobre a maneira como aprendemos a lidar com as nossas faltas.
Passamos boa parte da vida acreditando que ser forte é deixar de sentir. Com o tempo, descobrimos o contrário. Há mais força em reconhecer um desejo e não ser governado por ele. Querer que alguém esteja ali e, mesmo assim, não interromper a própria vida pela ausência dessa pessoa.
O vinho continua na taça. A cadeira continua vazia. E você continua desejando companhia. Nada precisou ser resolvido. Mas alguma coisa já não é igual: você percebe que pode sentir a falta de alguém sem faltar a si mesmo.
Experimente. Esteja inteiro onde você está – por fora e por dentro. É também na própria companhia que aprendemos a reconhecer uma presença.



Diante disso, presença é habitar o próprio estar ;
não fugir de si enquanto se está sozinho, nem desaparecer de si quando se está diante de alguém.
Winnicott traz a idéia de que é no encontro com o outro que, paradoxalmente, abrimos espaço para o encontro conosco.🍷
Que bela tradução da solidão. Estar só sem estar só de si mesmo. 😍