Reconheço que o título da crônica de hoje soa meio estranho. Mas tenho pensado nisso com uma frequência que começa até a me preocupar. Ando convencido de que está muito mais difícil harmonizar um vinho com uma pessoa interessante do que com qualquer prato.
Para a comida existem regras. Livros inteiros foram escritos sobre isso. O cordeiro continua sendo cordeiro. O peixe continua sendo peixe. A gordura não acorda de mau humor. A acidez não resolve aparecer diferente numa terça-feira. A comida não muda de personalidade enquanto está sobre a mesa.
As pessoas, sim.
E, antes que alguém ache essa afirmação arrogante, preciso dizer uma coisa. Também não sei se eu sou uma pessoa interessante para beber um vinho com alguém. Também devo estragar algumas harmonizações sem perceber. Há dias em que o corpo está sentado à mesa, mas a cabeça insiste em passear por lugares que nem existem.
Só que isso tem me incomodado.
Tenho a impressão de que estamos desaprendendo a habitar os momentos. É como se estivéssemos sempre esperando que a vida começasse daqui a pouco. O almoço acontece, mas já pensamos no compromisso seguinte. O jantar mal começou e alguém pega o celular. A conversa ainda nem ganhou profundidade e uma notificação consegue interromper tudo.
O engraçado é que o vinho continua fazendo exatamente o que sempre fez. Ele abre aos poucos. Muda de temperatura. Mostra aromas diferentes ao longo da taça. Pede calma, atenção. Pede companhia.
Nós é que mudamos.
Passei a acreditar que a harmonização mais difícil nunca foi entre vinho e comida. Sempre foi entre vinho e pessoas. Existem garrafas extraordinárias que perdem parte do encanto porque ninguém realmente chegou à mesa. E há vinhos simples que acabam sendo lembrados por anos. Não por causa da safra, do produtor ou da pontuação. Mas porque, naquele momento, havia alguém que fazia sentido estar ali.
Acho que é isso que tenho procurado sem perceber. Não é um vinho raro. Nem um restaurante novo. Muito menos alguém que saiba descrever aromas de blá blá blá… Tenho procurado pessoas que consigam dividir uma mesa sem a pressa de ir embora dela.
Quando uma pessoa interessante se senta à mesa, o vinho deixa de ser o protagonista.
E, é justamente nesse momento que ele se torna inesquecível.

