Ontem à noite me deitei com os sonhos de que hoje pudesse acordar no meu tempo e saciar as minhas vontades. Quis viver a vida por dentro, e não por fora.
Acordei quando o corpo entendeu que já era manhã. Nenhum sinal sonoro me chamou de volta ao mundo. À mesa do café da manhã, o calor do café cedeu lugar às borbulhas, à acidez e ao frescor de um bom champanhe safrado. Era outra, e melhor, maneira de começar o dia.
Também não marquei a hora do almoço. Quero almoçar quando a fome me visitar, sem compromisso com o relógio. Sobre a mesa, vou servir, numa taça de cristal, um jovem Pinot Noir da Borgonha. Quero que o vinho me acompanhe na ausência das horas que o homem inventou.
Depois do almoço, sem a companhia do tempo digital, do analógico, do relógio da parede ou da tela do celular, quero atravessar a tarde na presença de um vinho do Porto, entregando os olhos às páginas de um romance que me faça ter inveja dos que amam.
Antes que o sol se despeça, quero sair para caminhar. Quero chegar ao encontro do mar para assistir, sem nenhuma pressa, ao adeus do sol e à chegada da lua. Um encontro que acontece todos os dias, sem compromisso...
Depois, antes de dormir, ainda distante do tempo medido pelos homens e por suas agendas, quero servir um vinho tinto, tranquilo, de uma safra mais antiga. Quero adormecer respirando os aromas que os anos deixaram nesse vinho, como se o tempo também pudesse acompanhar o sono de um mortal.
E amanhã voltarei ao tempo dos homens. O despertador voltará a tocar. O café será corrido. O vinho não estará à mesa.
A vida, domesticada pelo tempo humano, procura conservar, entre as obrigações que nos chamam e a beleza que insiste em aparecer, um difícil e silencioso equilíbrio entre o tempo e a vida.



Excelente! Parabéns! Rogério, você tem percebido uma certa trend de "demonização do álcool"? O que pensa sobre isso?
Irretocavel! A sintese de um dia perfeito