Hoje me permito conhecer mais um novo vinho. Antes mesmo de prová-lo, já imagino tudo o que ele poderá me entregar, mas uma reflexão interrompe essa expectativa: como devo viver o presente para que ele não se perca entre tantos outros momentos? Enquanto o observo na taça, penso em quantos vinhos já bebi e dos quais não me lembro mais.
Não quero dizer que foram insignificantes. Seria injusto medir a importância de uma experiência apenas pela capacidade de recordá-la constantemente.
Cada um teve seu momento, ocupou uma mesa, acompanhou uma conversa e provocou algum prazer. Alguns me surpreenderam, outros corresponderam exatamente ao que eu esperava. E, ainda assim, desapareceram da memória sem que eu percebesse.
O esquecimento não transforma uma experiência em nada. Aquilo que não conseguimos recordar também participou da construção de quem somos. Os acontecimentos cumprem sua função e depois se afastam, como pessoas que passam pela nossa vida, deixam alguma coisa em nós e seguem sem ocupar permanentemente nossos pensamentos.
A memória não preserva tudo o que foi importante; pode acreditar nisso. Ela seleciona, oculta, mistura e reorganiza. Até alguns momentos marcantes acabam entrando no nosso mundo dos esquecidos. Não deixaram de existir nem perderam o valor que tiveram. Apenas já não permanecem ao alcance da consciência.
Basta provocar um pouco a lembrança para que alguns deles reapareçam. Enquanto escrevo, me lembro de vinhos que julgava esquecidos. Primeiro surge uma imagem; depois, surgem o momento, a música e as conversas; lentamente, o rótulo retorna. Em alguns casos, permanece apenas o que o vinho despertou, o que eu senti e vivi naquele instante. Em outros, reconheço o rótulo e recordo seu nome com nitidez!
Isso me faz pensar que viver intensamente um momento não garante que ele será lembrado. Também não adianta tentar transformar o presente em memória antes que ele termine. Quando nos preocupamos demais em guardar uma experiência, corremos o risco de deixar de vivê-la. A memória não aceita encomendas.
O vinho que estou conhecendo hoje também poderá desaparecer um dia. Posso esquecer seu nome, sua safra e tudo aquilo que agora tento compreender. Isso não diminuirá o que ele foi enquanto esteve diante de mim.
Neste instante, ele ocupa seu lugar, provoca meus sentidos e participa de uma parte da minha história.
Olho novamente para a taça e aceito que nem tudo precisa permanecer para ter sido verdadeiro. Muitos vinhos continuam conosco durante muitos anos. Outros existem apenas pelo tempo necessário e depois se recolhem a algum lugar da memória ao qual raramente conseguimos voltar.
Mas e você, quantos vinhos já bebeu e não lembra mais?


