O domingo desperta antes de nós.
O corpo e casa sabem. Até a claridade encontra um modo mais manso de atravessar as janelas, como se o próprio tempo tivesse aprendido a caminhar aos domingos.
É nesse dia que eu quero beber do nosso vinho. Não importa onde ele repouse.
Pode adormecer sobre a toalha bordada de uma mesa cercada por filhos, pais e avós, enquanto o aroma do almoço se mistura às lembranças que nunca envelhecem.
Pode cintilar entre duas taças voltadas para o mar, onde amantes conversam pouco, porque o afeto, quando amadurece, aprende a dispensar algumas palavras.
Pode repousar diante de quem atravessa o domingo sozinho, na sua solidão, que possui a delicadeza das catedrais: não assusta, apenas convida ao recolhimento. Um bom vinho também sabe rezar em silêncio.
Pode nascer entre amigos, onde o riso decanta mais lentamente que o próprio vinho, e cada brinde prolonga a existência das pequenas alegrias, aquelas que quase sempre escapam aos dias úteis.
É isso que mais amo no domingo.
Ele distribui o mesmo céu sobre destinos tão diferentes.
E, ainda assim, encontra uma maneira de oferecer a cada mesa a exata medida da ternura.
Hoje eu quero beber do nosso vinho.
Quero o vinho que conhece nossos nomes.
O vinho que testemunha reconciliações, inaugura amores, consola ausências, celebra reencontros e permanece sobre a mesa da nossa vida.
Todo domingo tem um vinho esperando por alguém.

