O Guia Michelin pode arruinar o vinho? A pergunta parece exagerada, mas ganhou força com a entrada oficial da empresa francesa no universo vitivinícola. Em 2026, a Michelin deu início ao seu novo projeto de classificação de vinícolas em Bordeaux e na Borgonha, avaliando não apenas a qualidade dos vinhos, mas também a experiência oferecida aos visitantes. A iniciativa amplia um império que começou com restaurantes e que, ao longo de mais de um século, se transformou em um dos maiores símbolos de prestígio da gastronomia mundial. A novidade foi recebida com entusiasmo por muitos produtores. Eu, confesso, a recebi com preocupação.
Não porque a Michelin não tenha credibilidade. Ela tem. O problema é outro. O vinho talvez seja um dos poucos produtos culturais que nunca precisou de um único juiz para definir o que era excelência. Sua história foi construída por regiões, tradições, famílias, denominações de origem e diferentes escolas de produção. Muito antes de qualquer guia existir, Bordeaux, Borgonha, Piemonte, Rioja ou Mosel já eram reconhecidos por aquilo que produziam. A reputação nasceu da história e do tempo, não de uma classificação comercial.
Isso não significa que o vinho viva sem avaliações. Pelo contrário. Poucos mercados acumulam tantos sistemas de validação. Existem as denominações de origem, as classificações históricas, como a de 1855 em Bordeaux e a hierarquia dos Grands Crus da Borgonha, além de concursos internacionais, medalhas, rankings e as pontuações de críticos como Robert Parker, Jancis Robinson, James Suckling, Wine Spectator e Decanter. O consumidor nunca teve falta de referências. Muitas vezes, sofre justamente pelo excesso delas.
O resultado é, no mínimo, estranho. Em vez de aproximar as pessoas do vinho, criamos a impressão de que ele só pode ser apreciado depois de passar pelo crivo de algum especialista. A garrafa deixa de ser escolhida pela curiosidade ou pela conversa com um bom sommelier e passa a ser escolhida porque alguém lhe atribuiu 95 pontos, uma medalha ou, agora, talvez, um selo Michelin.
Toda classificação produz consequências. Quando um sistema concentra prestígio, ele também passa a influenciar comportamentos. Restaurantes mudaram cardápios para conquistar estrelas Michelin. Isso não é uma acusação; é um fenômeno amplamente discutido dentro da própria gastronomia. Muitos chefs passaram anos cozinhando para inspetores, e não necessariamente para seus clientes. Houve ganhos importantes em qualidade e técnica, mas também surgiram críticas sobre a padronização da alta cozinha, a elevação dos preços e a perda de espontaneidade em muitos estabelecimentos.
É difícil acreditar que, com o vinho, seria diferente. Produtores vivem de reputação. Uma nova certificação internacional representa mais visitantes, maior exposição, mais exportações e, naturalmente, preços mais altos. Aos poucos, mesmo sem intenção, o mercado começa a olhar para os critérios do avaliador. Não porque eles sejam obrigatórios, mas porque passam a ser economicamente relevantes.
É nesse ponto que entra a minha preocupação. O vinho sempre foi fascinante porque resiste à uniformidade. Há espaço para um pequeno produtor do Jura ao lado de um grande château de Bordeaux. Para um vinho vulcânico do Etna, um espumante brasileiro de altitude ou uma antiga vinha portuguesa conduzida pela mesma família há gerações. Essa diversidade não nasceu porque alguém definiu um padrão universal de excelência. Ela existe porque o vinho sempre foi maior do que qualquer sistema de classificação.
Também me preocupa o efeito sobre quem está do outro lado da garrafa. Quanto mais selos criamos, mais reforçamos a ideia de que beber vinho exige aprovação de especialistas. O consumidor passa a procurar o vinho certo, a vinícola certa, a safra certa, como se existisse uma resposta correta para uma experiência que sempre foi profundamente pessoal. O prazer da descoberta vai sendo substituído pela segurança da validação.
Os vinhos mais marcantes que bebi nunca chegaram à minha taça por causa de um guia. Vieram da indicação de um amigo, de uma conversa inesperada com um produtor, de uma pequena importadora ou de uma viagem em que o acaso fez um trabalho melhor do que qualquer algoritmo ou ranking poderia fazer.
Penso que o novo guia da Michelin seja um sucesso comercial. Talvez se torne uma referência mundial. Mas continuo acreditando que o futuro do vinho não depende de mais uma classificação. Depende de consumidores curiosos, produtores autênticos e da liberdade de descobrir, por conta própria, que alguns dos melhores vinhos do mundo jamais precisarão de um selo para provar que são extraordinários. Muitos já são assim.

