Poucos personagens da história do vinho são tão fascinantes quanto Abû Nuwâs.
Seu nome raramente aparece em livros ocidentais sobre o tema, mas, há mais de doze séculos, ele transformou o vinho em poesia no coração do Califado Abássida, quando Bagdá era uma das cidades mais sofisticadas do mundo.
Em uma época em que o consumo de vinho já era condenado pela tradição islâmica, ele não apenas bebia.
Escrevia versos celebrando a embriaguez, o prazer, a amizade e a liberdade com uma ousadia que ainda hoje impressiona.
Nascido por volta de 756, provavelmente na região do atual Irã, Abû Nuwâs viveu quase toda a sua vida em Bagdá. Era um poeta refinado, conhecedor da língua árabe, da tradição literária e da cultura de seu tempo. Frequentava a corte dos califas, mas também as tavernas. Convivia com intelectuais, músicos e artistas, ao mesmo tempo em que cultivava a fama de irreverente. Sua poesia transitava entre o erudito e o provocador, tornando-o uma das vozes mais originais da literatura árabe clássica.
O vinho ocupa o centro de sua obra. Não como simples bebida, mas como símbolo de uma existência plenamente vivida. Em seus poemas, a taça representa a amizade, a conversa, o amor, a beleza e a recusa de uma vida dominada pelo medo. Enquanto muitos escritores descreviam virtudes ascéticas, Abû Nuwâs escrevia sobre tavernas, copeiros, banquetes e os pequenos prazeres da vida cotidiana.
Em um de seus poemas mais conhecidos, pede que não o repreendam por beber e afirma que sua “cura” está justamente naquilo que os outros chamam de sua doença.
A provocação é deliberada e revela um poeta que conhecia perfeitamente os limites que estava ultrapassando.
Não me repreendas, pois a repreensão é uma tentação. Cura-me com aquilo que é a minha doença.
Essa ousadia ganha ainda mais força quando observamos o contexto histórico. O Alcorão condena a embriaguez e, ao longo dos primeiros séculos do Islã, o consumo de vinho passou a ser objeto de restrições religiosas e jurídicas. Sabemos, porém, que a realidade do Califado Abássida era muito mais complexa do que frequentemente imaginamos.
Bagdá reunia comerciantes, médicos, filósofos, cientistas e poetas vindos de diferentes regiões. Havia produção de vinho, tavernas e uma intensa vida intelectual. Foi nesse ambiente de contrastes que Abû Nuwâs encontrou espaço para escrever aquilo que poucos ousariam colocar no papel.
Sua irreverência não passou despercebida. Fontes históricas relatam que foi preso em diferentes ocasiões, embora seja difícil separar os fatos das lendas construídas ao redor de sua figura.
Também se sabe que sua obra enfrentou períodos de censura em diferentes momentos da história do mundo islâmico, sobretudo por seus poemas dedicados ao vinho e ao erotismo.
Mesmo assim, sobreviveu aos séculos graças à qualidade literária de seus versos e à influência que exerceu sobre gerações posteriores de escritores árabes e persas.
O que mais me impressiona em Abû Nuwâs é perceber que ele nunca escreveu sobre vinho como um especialista, um comerciante ou um agricultor. Escreveu, antes de tudo, como um poeta. Para ele, o vinho era um elemento da experiência humana, tão importante quanto o amor, a amizade ou a própria poesia.
Seus versos não discutem castas, terroirs ou métodos de vinificação. Discutem aquilo que acontece quando o vinho aproxima pessoas, dissolve convenções e lembra que a vida é finita.
E é por isso que, para mim, Abû Nuwâs nunca foi apenas um poeta do vinho. Sempre que leio seus versos, tenho a impressão de que ele nos lembra de algo que muita gente esquece: o vinho nunca existiu apenas para ser analisado. Eu gosto da ideia de que ele existe para aproximar pessoas, despertar conversas e celebrar a vida. Essa é, para mim, a forma mais bonita de compreender o vinho.
Por onde começar a ler Abû Nuwâs
Poèmes bachiques et libertins (francês)
A mais conhecida seleção de seus poemas sobre vinho, prazer e liberdade, traduzida por Omar Merzoug.
Dīwān de Abû Nuwâs (árabe)
A coletânea mais completa de sua obra, publicada em diferentes edições críticas e parcialmente traduzida para outros idiomas.
Poems of Wine & Revelry: The Khamriyyat of Abu Nuwas (inglês)
Uma das principais traduções para o inglês dedicada aos seus poemas sobre o vinho.
Cantar al vino (espanhol)
Seleção bilíngue de cerca de cem poemas, publicada pela Editora Cátedra, uma excelente porta de entrada para quem lê espanhol.


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