Sempre desconfiei das pessoas que afirmam conhecer o vinho em sua totalidade. Não porque lhes falte conhecimento, didática ou paladar. Desconfio porque ninguém pode conhecer verdadeiramente uma bebida que muda conforme o estado da própria alma. Julgamos beber o vinho. Quase sempre é ele quem nos bebe.
Outro dia observei um casal. Nada possuía de extraordinário. O ambiente estava cheio de pessoas iguais àquelas. Ainda assim, havia entre eles uma inquietação impossível de ignorar. Os olhos hesitavam antes de se encontrarem. As mãos pareciam obedecer a uma prudência que o desejo já não aceitava.
Existia uma distância mínima entre os dois. Era justamente essa distância que os consumia. Sobre a mesa repousava uma garrafa de vinho dividindo espaço com taças. Pela primeira vez, ocorreu-me que o vinho compreendia mais sobre aqueles dois do que eles próprios.
O casal ali imagina apaixonar-se pela beleza, pela inteligência ou pela delicadeza um do outro. É um engano confortável. Nos apaixonamos porque encontramos, diante do outro, a esperança de silenciar uma solidão que nos acompanha. Não amamos apenas o outro. Amamos a possibilidade de deixar de conversar conosco mesmos.
Eis o instante em que o vinho deixa de ser uma bebida. Não embriaga. Desarma. Faz cair, uma após a outra, as pequenas muralhas que passamos a vida construindo para sobreviver.
Por isso o vinho nunca desaparecerá inteiramente da memória. Não permanece por causa da safra, da uva ou da habilidade do enólogo. Permanece porque foi bebido antes que o amor aprendesse a desconfiar de si mesmo. Existe uma inocência que só visita os primeiros dias de uma paixão. Depois, ela parte em silêncio, levando consigo uma maneira de olhar que jamais regressa. O amor e a paixão não dão as mãos.
Os amantes acreditam que o vinho melhorou o beijo. Enganam-se. Foi o beijo que transformou o vinho. O desejo possui uma estranha autoridade sobre as coisas. Modifica o tempo, altera o peso das palavras, empresta perfume às lembranças e convence um vinho comum de que nasceu para ser inesquecível. Não existe ilusão mais bela. Também não existe ilusão mais breve.
Anos depois, o vinho continua existindo. A safra permanece registrada nos livros. Tudo parece intacto. Apenas duas pessoas deixaram de existir. Não morreram. Tornaram-se outras. É esse o destino mais silencioso do amor: não acabar de uma vez, mas substituir lentamente aqueles que um dia juraram reconhecer um ao outro para sempre.
Desde então, quando vejo um casal recém apaixonado dividir uma garrafa, não sinto inveja nem nostalgia. Sinto uma espécie de compaixão. Eles acreditam estar descobrindo um vinho. Ignoram que estão descobrindo uma versão de si mesmos que viverá menos do que imaginam.
E não será o vinho que lhes fará falta um dia. Será aquela forma luminosa, vulnerável e quase irrepetível de existir diante do olhar de outra pessoa, cheia de uma paixão recente.

