PRÓLOGO
O trem chegou à Borgonha no fim da tarde, trazendo nas janelas a luz pálida de setembro de 1978. Lavish desceu com uma mala de couro, alguns cadernos em branco e uma passagem de volta a Paris marcada para o mês seguinte. Ficou alguns minutos diante da estação, observando as pessoas partirem como se todas soubessem exatamente aonde ir. Ele não sabia. Pela primeira vez em muitos anos, isso não o incomodava.
Muito tempo depois, seria incapaz de recordar o rosto do homem que recolheu seu bilhete ou a primeira palavra que ouviu ao desembarcar. Guardaria, porém, aquela luz. Uma claridade quase sem cor, pousada sobre os telhados e os ombros das pessoas, fazendo a cidade parecer recolhida dentro de uma fotografia antiga.
Na hospedaria, recebeu a chave de um quarto no segundo andar. Havia uma cama estreita, uma escrivaninha voltada para a janela e cortinas que conservavam o cheiro de muitas chuvas. Colocou os cadernos sobre a mesa, deixou a passagem entre eles e tornou a sair. A mala permaneceu fechada.
Beaune começava a acender suas primeiras luzes. As lojas encerravam o dia, as vozes desapareciam atrás das portas e o frio descia pelas paredes de pedra. Caminhou até encontrar um pequeno bistrô numa rua afastada do centro. Entrou atraído pelo calor que embaçava os vidros e escolheu uma mesa no canto, de onde podia observar todo o salão sem ser observado por inteiro.


