Rogério Felício

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Os vinhos de Lavish

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Rogério Felício
set 18, 2026
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CAPÍTULO 3

No quarto, Lavish colocou sobre a escrivaninha a garrafa que trouxera do bistrô. Restava menos da metade do Volnay. Tirou o paletó preto, deixou-o sobre a cadeira e sentou-se diante de um dos cadernos. Serviu um pouco do vinho no pequeno copo que encontrou ao lado da jarra de água, escreveu a data no alto da página e ficou alguns instantes com a caneta parada sobre o papel. Depois começou.

“Meu primeiro jantar em Beaune aconteceu por acaso. Caminhei sem saber exatamente para onde estava indo e entrei num pequeno bistrô porque os vidros estavam embaçados e aquilo me pareceu uma boa razão para escolher um lugar.

Pedi uma volaille rôtie. Quando chegou o momento do vinho, devolvi a carta ao homem que me atendia e pedi que ele escolhesse. Disse apenas que queria um tinto. Ele apareceu pouco depois com um Volnay 1er Cru Clos des Ducs 1971, do Domaine Marquis d’Angerville.

Eu conhecia Volnay. Conhecer o nome de um lugar, porém, descobri esta noite, é muito diferente de beber um vinho a poucos quilômetros de onde ele nasceu.

O vinho chegou sem discurso. O homem abriu a garrafa, serviu um pouco e esperou que eu provasse. Quando perguntei se não me falaria nada sobre o vinho, respondeu apenas que o vinho estava ali. Primeiro eu deveria beber. Depois, se ainda quisesse, conversaríamos sobre ele.

Bebi.

A cor já começava a perder a juventude nas bordas, mas ainda conservava bastante vida. No nariz, a fruta vermelha aparecia primeiro. Cereja, alguma framboesa e uma fruta mais escura que eu não consegui identificar. Depois vieram as flores secas, a terra úmida, folhas e uma especiaria discreta. A cada vez que voltava à taça, alguma coisa havia mudado de lugar.

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