CAPÍTULO DOIS
Colette virou a chave da porta e apagou a luz sobre a entrada. Marcel ainda recolhia as últimas taças e garrafas das mesas.
O bistrô estava diferente quando vazio. Sem as conversas, o barulho dos talheres e o movimento da porta, era possível ouvir o ranger do assoalho e a água correndo na pequena pia atrás do balcão.
Colette passou um pano sobre uma das mesas.
— O casal da janela vem amanhã?
— Disse que sim.
— Eles sempre dizem.
Marcel levou algumas taças para o balcão.
— E quase sempre voltam.
— Porque gostam da comida.
— Porque gostam de você.
Colette olhou para ele.
— Então é pela comida.
Marcel sorriu e continuou trabalhando.
Faziam aquilo juntos havia tantos anos que já não precisavam decidir quem faria o quê. Enquanto um recolhia as mesas, o outro conferia o salão. Enquanto um apagava as luzes, o outro verificava a cozinha. Havia noites em que conversavam durante todo o trabalho. Em outras, fechavam o bistrô quase sem trocar uma palavra.
Colette pegou uma cadeira e a colocou no lugar.
— E o homem de preto?
Marcel não perguntou de quem ela falava.
— O brasileiro.
— Brasileiro?
— Chegou hoje.
— Eu percebi que tinha chegado hoje.
Marcel parou.
— Como?


