Rogério Felício

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Os vinhos de Lavish

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Rogério Felício
ago 12, 2026
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CAPÍTULO UM

O voo desde o Brasil tinha sido tranquilo. Lavish passara boa parte da viagem acordado, embora tivesse dormido algumas horas depois do jantar. Viajava de primeira classe e gostava do silêncio que encontrava ali. Não era exatamente o conforto que apreciava, mas a possibilidade de não ser incomodado. Tinha levado um livro que quase não abriu e um pequeno caderno de capa de couro preto que tirou várias vezes do bolso interno do paletó.

Escrevia pouco. Às vezes uma frase inteira, às vezes duas ou três palavras. Não fazia esforço para entender o que anotava e raramente voltava às páginas anteriores. Havia aprendido que algumas ideias precisavam apenas de um lugar onde pudessem esperar.

Quando o avião começou a descer sobre Paris, guardou o caderno, colocou a caneta no mesmo bolso e olhou pela janela. Não conhecia bem a França. Estivera em Paris duas vezes, sempre por poucos dias, e em nenhuma delas havia pensado em seguir para o interior. Desta vez também não pretendia ficar muito. Trazia uma passagem de volta para o mês seguinte e nenhuma razão suficientemente importante para mudar de ideia.

De Paris seguiu para a Gare de Lyon. Comprou a passagem para Beaune e esperou pelo trem com a mala ao lado. Na estação, observava mais as pessoas do que os painéis. Um homem de sobretudo segurava um jornal dobrado debaixo do braço. Uma mulher discutia com uma criança enquanto procurava alguma coisa dentro da bolsa. Dois jovens se despediam junto à plataforma. Lavish abriu o caderno.

As despedidas sempre parecem maiores nas estações.

Leu uma vez. Fechou o caderno.

O trem deixou Paris e, durante algum tempo, ele acompanhou pela janela a sucessão de construções, muros, telhados e postes. Depois a paisagem começou a se abrir. Lavish encostou a cabeça no banco e permaneceu olhando para fora. Gostava de viajar de trem justamente por aquilo. Nos aviões, um lugar desaparecia e outro surgia algumas horas depois. No trem era possível assistir à distância acontecendo.

Não sabia quase nada sobre Beaune além do que havia lido antes de partir. Sabia que ficava na Borgonha e que o vinho ocupava ali uma importância difícil de separar da própria história da região. Não tinha ido à França por causa disso. A viagem nascera de uma vontade mais simples de passar algumas semanas longe do Brasil, escrever um pouco e caminhar por lugares onde ninguém soubesse quem ele era.

Na primeira quinzena daquele setembro de 1978, a Borgonha atravessava dias secos depois de meses pouco generosos. O verão demorara a chegar e ainda havia uvas nas videiras. Faltavam algumas semanas para que começassem as vindimas. Lavish não sabia que aquela safra seria lembrada muitos anos depois. Naquele momento, para ele, eram apenas campos vistos através da janela de um trem.

Quando avistou as primeiras extensões de vinhas, inclinou-se discretamente para o vidro. Não eram como imaginara. Esperava alguma imponência e encontrou fileiras baixas, organizadas sobre a terra, acompanhando pequenas ondulações do terreno. Olhou durante alguns minutos antes de pegar novamente o caderno.

Dessa vez escreveu apenas:

Tudo que é grande começa pequeno.

Guardou o caderno antes que a frase lhe pedisse qualquer explicação.

O trem chegou à Borgonha no fim da tarde, trazendo nas janelas a luz pálida daquele setembro. Lavish desceu em Beaune com a mala de couro e os cadernos que trouxera do Brasil. Ficou alguns minutos diante da estação. As pessoas partiam em direções diferentes, algumas recebidas por alguém, outras seguindo sozinhas, mas todas pareciam saber exatamente aonde ir.

Ele não sabia.

Pela primeira vez em muitos anos, isso não o incomodava.

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