Existe uma diferença enorme entre beber vinho e consumir álcool. Embora as duas coisas pareçam iguais, raramente são. O álcool é apenas um dos componentes do vinho. O vinho, por outro lado, é uma construção humana que atravessa milênios. É agricultura, tempo, território, memória, mesa, afeto e convivência. Antes de ser uma bebida, ele foi alimento. Antes de se tornar objeto de desejo, já aproximava pessoas ao redor da mesma mesa.
Foi exatamente essa diferença que me veio à cabeça ao assistir, mais uma vez, à entrevista que Charles Bukowski concedeu a Bernard Pivot, em 1978. Ao lado de Bukowski estavam François Cavanna, Catherine Paysan, Marcel Mermoz e Gaston Ferdière, todos reunidos para uma conversa sobre literatura no programa Apostrophes. Bastaram alguns minutos para que os livros perdessem espaço para as sucessivas garrafas de Sancerre que Bukowski esvaziava diretamente do gargalo. Enquanto os demais convidados tentavam discutir suas obras e ideias, ele interrompia respostas, provocava os presentes e transformava a entrevista em um espetáculo.
O programa terminou em constrangimento e entrou para a história da televisão francesa como um dos episódios mais marcantes da televisão literária.O curioso é que quase ninguém se lembra do vinho servido naquela noite. Ninguém procura aquela entrevista para descobrir qual era o produtor do Sancerre, como aquele vinho foi elaborado ou por que Bernard Pivot o escolheu para a mesa. A única lembrança que sobreviveu foi a embriaguez de Bukowski. Isso acontece porque, em determinado momento, aquela garrafa deixou de ser vinho. Tornou-se apenas álcool.
Não escrevo isso como uma crítica a Bukowski. Sua relação com a bebida sempre foi pública e atravessou toda a sua obra. O álcool fazia parte da sua biografia muito antes daquela entrevista. O que me interessa naquela cena é outra coisa. Ela revela como somos capazes de esvaziar o significado de algo extraordinário quando passamos a enxergá-lo apenas pela função mais imediata que ele pode cumprir.
Fazemos isso com muito mais frequência do que imaginamos. Há pessoas que olham para um livro e enxergam apenas papel. Há quem veja uma obra de arte como decoração. Há quem transforme um relacionamento em conveniência. Da mesma forma, há quem abra uma garrafa de vinho interessado apenas na quantidade de álcool que ela pode oferecer. Quando isso acontece, desaparecem o viticultor, a paisagem, a safra, o tempo de amadurecimento e a história que aquela garrafa carregou até chegar à mesa. O vinho continua existindo fisicamente, mas deixa de existir como experiência.
É por isso que o vinho ocupa um lugar tão singular na história da humanidade. Nenhum outro alimento reúne com tanta naturalidade agricultura, cultura, religião, gastronomia e convivência. Uma garrafa tem a capacidade de prolongar um jantar, aproximar pessoas que acabaram de se conhecer, celebrar reencontros e transformar uma conversa comum em uma lembrança que permanecerá por muitos anos. O álcool sempre fez parte dessa história, mas nunca foi o seu protagonista.
Rever Bukowski diante de Bernard Pivot é um bom exercício para lembrar dessa diferença. Naquela mesa havia um grande vinho francês, mas ele desapareceu antes mesmo de ser percebido. Restou apenas o efeito que o álcool podia provocar.
Há garrafas que terminam vazias porque acompanharam uma boa conversa entre amigos. Outras terminam vazias porque serviram apenas para embriagar alguém. A quantidade de vinho é exatamente a mesma. O significado, porém, nunca será.


Impecável nas palavras 🤌🏻
Sim , perfeita colocação, em psicanálise costumamos dizer que o objeto - vinho - deixa de ser tomado em sua espessura simbólica para ser consumido apenas por sua função de produzir um efeito no corpo.
O que importa já não é a experiência, mas a descarga.
E como vc bem falou isso acontece com outros objetos, e toda vez que um objeto é reduzido ao efeito que produz, algo de sua verdade se perde. O desejo cede lugar ao consumo.