Imagine que você fosse um vinho. Eu ia querer te ter na minha adega. É pretensioso isso, eu sei, querer ter alguém como se guarda uma garrafa. Mas eu teria. Só não sei quando escolheria te beber. Num dia qualquer sozinho, numa comemoração com amigos, no aniversário de alguém, no meu aniversário, não sei. Em algum momento eu sentiria que chegou a hora da sua presença.
E existe um problema nessa história. Eu só teria uma oportunidade. Não poderia beber um pouco hoje e guardar o restante para outra hora. Depois que uma garrafa é aberta, começa uma espécie de contagem. O início, o meio e o fim cabem quase sempre no mesmo momento. Uma coisa bonita e cruel ao mesmo tempo.
Quando eu finalmente decidisse te beber, ficaria curioso para saber o que você me entregaria. O prazer, os aromas que apareceriam primeiro, os que levariam mais tempo. Se eu entenderia você logo no primeiro gole ou precisaria voltar à taça algumas vezes até perceber o que estava escondido ali.
E tem a sua embriaguez. Essa me intriga. Poderia ser daquelas que fazem a gente perder o juízo e cometer alguma loucura, rir de tudo e de todos, ficar bobo, tonto, sem saber direito se está bebendo ou se já foi completamente bebido.
Poderia também cobrar caro no dia seguinte. Acordar com a cabeça doendo, tentando reconstruir a noite e prometendo nunca mais. Ou justamente o contrário. Acordar feliz, ainda com alguma coisa daquele gosto na boca e uma vontade absurda de voltar algumas horas no tempo só para provar o último gole outra vez.
Se você fosse vinho, eu não sei quando te abriria, com quem estaria ou que vida eu estaria vivendo naquele momento. Só sei que, depois de aberta a garrafa, não haveria como te guardar de novo. Aquela seria a primeira e a última vez. E acho que é isso que mais me embriaga nessa ideia. Não saber como eu te beberia, nem o que você faria comigo depois.



Vc conseguiu traduzir perfeitamente aquela sensação de quando a gente reconhece o valor inestimável de alguém, mas esbarra na vulnerabilidade de que relações profundas são irreversíveis. Uma garrafa aberta não volta a ser lacrada. Eu seria um Mouton Cadet descomplicado ou um Bourgogne Pinot Noir bem feito, elegante, cheio de camadas para quem presta atenção, mas aberto para ser apreciado de verdade, sem drama. Cheers 🍷🍷