Os Retratos de Golden, de Allen Levi, é um romance sobre encontros, arte, observação e as histórias silenciosas que carregamos dentro de nós. A narrativa acompanha Theo, um homem que chega à pequena cidade de Golden e se vê intrigado por uma coleção de retratos exposta nas paredes de uma cafeteria local. A partir dessa descoberta aparentemente simples, o livro convida o leitor a refletir sobre identidade, pertencimento, memória e a forma como enxergamos as pessoas ao nosso redor.
Mais do que uma história sobre retratos, é um livro sobre a humanidade presente por trás deles.
Este texto inaugura um pequeno diário de leitura de Os Retratos de Golden. Não pretendo escrever uma resenha tradicional, nem analisar a obra sob a ótica da crítica literária. Quero apenas registrar as impressões que surgirem ao longo do caminho da minha leitura, capítulo após capítulo, à medida que a história avança.
Há, porém, uma condição. Essa leitura será sempre acompanhada por uma garrafa de vinho.
Nem sempre a garrafa será esvaziada na mesma noite. Às vezes ela retornará em leituras futuras. Outras vezes dará lugar a outro vinho. Mas cada capítulo lido carregará consigo uma taça e as reflexões que ela provocar.
Quando se fala em harmonização, o mais comum é pensar na relação entre vinho e comida. Faz sentido. Mas quem acompanha meus textos sabe que raramente me detenho no óbvio. Na minha revista, ROFE, utilizo a harmonização como uma forma de aproximar o vinho de outras manifestações culturais, como filmes, músicas, obras de arte e livros.
Será exatamente essa a proposta aqui.
Ao longo desta leitura, tentarei encontrar pontos de encontro entre os capítulos de Os Retratos de Golden e os vinhos que estiverem sobre a mesa. Não necessariamente porque possuam os mesmos aromas ou sabores, mas porque compartilham atmosferas, sentimentos, memórias ou perguntas.
Antes mesmo de abrir o livro, escolhi o vinho que me acompanharia nos primeiros capítulos desta leitura. A escolha recaiu sobre um Quinta do Poço do Lobo 1990, da Bairrada, um vinho português que, para mim, sempre carregou algo de francês na alma. Um vinho que, servido às cegas, poderia facilmente conduzir o pensamento para outras paragens.
Naquele momento, porém, eu não fazia ideia de que havia escolhido uma companhia tão apropriada para o início desta jornada.
Somente durante a leitura descobri que Theo, o personagem que conduz a narrativa de Os Retratos de Golden, nasceu e cresceu no norte de Portugal antes de seguir seu caminho pelo mundo e chegar à pequena cidade americana onde a história se desenrola. Confesso que sorri quando encontrei esse detalhe nas páginas do livro.
Não porque estivesse diante de uma harmonização cuidadosamente planejada. Pelo contrário. O encontro aconteceu por acaso.
De um lado da mesa estava uma garrafa portuguesa. Do outro, um personagem português. Entre eles, uma história ambientada nos Estados Unidos, construída justamente a partir do olhar de alguém que chega de fora, observando uma nova cidade, novas pessoas e novas histórias.
É cedo para tirar conclusões sobre o livro. Estou apenas nos primeiros capítulos. Mas gostei dessa primeira coincidência. Ela me lembrou que algumas harmonizações não nascem da intenção. Nascem da surpresa.
E poucas coisas me parecem tão interessantes quanto as surpresas que surgem quando um bom livro e uma boa garrafa de vinho dividem a mesma mesa.
O primeiro capítulo de Os Retratos de Golden apresenta Theo chegando a Golden depois de deixar Nova York para trás. Em poucas páginas, Allen Levi não se preocupa em construir grandes acontecimentos. O que vemos é algo muito mais simples e, justamente por isso, muito mais interessante: um homem descobrindo um lugar novo.
Theo caminha pelas ruas sem pressa. Observa edifícios, placas, árvores, esculturas e pessoas. Não parece interessado apenas em saber onde está. Quer compreender o que aquele lugar tem a lhe dizer.
Enquanto lia essas páginas, pensei em como uma garrafa de vinho muitas vezes nos convida ao mesmo exercício.
Costumamos abrir uma garrafa acreditando que estamos apenas escolhendo um vinho. Mas não é bem assim. Quando escolhemos um vinho da Bairrada, do Douro, da Borgonha ou da Toscana, estamos aceitando um convite para visitar outro lugar. Continuamos sentados na mesma cadeira, diante da mesma mesa, mas uma parte de nós começa a viajar.
Cada aroma funciona como uma pista. Cada sabor revela um detalhe da paisagem. Cada gole apresenta algo novo sobre o clima, a cultura, as tradições e as pessoas que vivem naquela região.
Da mesma forma que Theo chega a Golden disposto a observar antes de julgar, o melhor modo de se aproximar de um vinho é com curiosidade. Não procurando apenas aquilo que esperamos encontrar, mas estando abertos às surpresas que ele decide revelar.
Essa foi a principal impressão que o primeiro capítulo me deixou. Grandes descobertas raramente acontecem quando estamos com pressa. Elas surgem quando diminuímos o ritmo, prestamos atenção aos detalhes e permitimos que um lugar – ou uma garrafa – conte sua própria história.
No segundo capítulo, a história se desloca para dentro do Cálice. O nome, por si só, já me pareceu uma provocação curiosa para quem decidiu acompanhar essa leitura com uma garrafa de vinho ao lado. Até aqui, ainda não descobri a origem do nome da cafeteria. Mas confesso que gostei da coincidência. Entre tantas possibilidades, Theo encontra justamente um lugar chamado Cálice, cercado por café, arte e conversas.
É ali que os retratos de Golden começam a ocupar o centro da narrativa.
As paredes da cafeteria estão cobertas por dezenas de desenhos feitos por um artista local. Rostos de pessoas comuns. Frequentadores da cidade. Histórias silenciosas penduradas em molduras. Theo fica fascinado. Aproxima-se, observa os detalhes, tenta imaginar quem são aquelas pessoas e o que existe por trás de cada expressão.
O curioso é que ninguém ao redor parece compartilhar do mesmo encantamento.
Os retratos estão ali todos os dias. Os clientes passam por eles sem parar. O barista os conhece. A cidade convive com eles. Mas é um estrangeiro, recém-chegado, que percebe seu valor quase imediatamente.
Enquanto lia essas páginas, pensei em quantas vezes fazemos exatamente a mesma coisa com o vinho.
No país onde moro, o Brasil, produzimos grandes vinhos. Mesmo sendo uma nação relativamente jovem dentro da cultura vitivinícola mundial, já existem produtores, regiões e projetos capazes de criar garrafas de enorme qualidade. Ainda assim, não são raras as ocasiões em que o reconhecimento chega primeiro de fora. Alguém atravessa um oceano, prova um vinho brasileiro e enxerga nele algo que muitos de nós deixamos de perceber. Como se a proximidade excessiva tornasse certas riquezas invisíveis.
Theo não tem qualquer vínculo emocional com aqueles retratos. Justamente por isso consegue olhar para eles com curiosidade intacta. Sem hábitos. Sem preconceitos. Sem a distração da rotina.
Essa me parece uma das maiores virtudes de quem ama vinho.
Continuar olhando para uma garrafa como quem chega pela primeira vez a uma cidade desconhecida. Continuar fazendo perguntas. Continuar disposto a se surpreender.
No Cálice, Theo percebeu o valor de uma arte que os habitantes de Golden já haviam incorporado à paisagem. No vinho, acontece algo parecido. Muitas vezes, aquilo que procuramos em lugares distantes está silenciosamente diante de nós, esperando apenas alguém disposto a parar, observar e prestar atenção.
Chegando ao fim do segundo capítulo e encerrando a leitura por hoje, fico com a impressão de que os retratos não são apenas o tema central do livro. Eles são, na verdade, um convite para enxergar melhor. Para olhar com mais atenção para aquilo que está diante de nós todos os dias e que, por força do hábito, aprendemos a ignorar.
E isso, no fundo, também é uma das coisas mais importantes que o vinho pode nos ensinar.
Fecho esta leitura ainda com algumas taças do Poço do Lobo 1990 esperando na garrafa. Não por muito tempo. Pretendo terminá-las agora, ouvindo uma playlist de jazz antes de dormir. E enquanto a música toca, terminar de escrever este artigo que você acaba de ler. Afinal, algumas harmonizações acontecem à mesa. Outras acontecem exatamente assim: entre páginas, taças e pensamentos.
Notas da leitura
Livro
Título: Os Retratos de Golden
Autor: Allen Levi
Gênero: Romance
Primeira publicação: 2009
Tema central: Arte, memória, pertencimento, identidade e as histórias que se escondem por trás das pessoas comuns.
Leitura atual: Prólogo, Capítulo 1 e Capítulo 2.
Vinho
Rótulo: Quinta do Poço do Lobo Garrafeira 1990
Produtor: Caves São João
Região: Bairrada, Portugal
País: Portugal
Tipo: Vinho tinto
Castas: Baga, Cabernet Sauvignon e Merlot
Safra: 1990
Serviço da leitura: Degustado durante a leitura do prólogo e dos dois primeiros capítulos.


Pensando aqui… Se não devemos julgar o livro pela capa, o mesmo vale para o vinho e o seu rótulo. Parte da minha família é de Anadia, o coração da Bairrada. Percebo neles a mesma alma do vinho local: são firmes, autênticos e têm aquela 'casca grossa' no bom sentido, de quem resiste e se adapta às maiores adversidades. Bairradinos e vinhos partilham o amor pelo tempo e pelas tradições. Se este vinho for daqueles que nos ganha aos poucos, mas nos conquista para a vida toda, ele cumpre o seu papel com a mais pura identidade.
Muito interessante a sua reflexão sobre a harmonização entre o vinho e a leitura. Concordo plenamente e já havia intuído isso de algum modo, mas hoje você colocou em palavras essa intuição de um jeito que fez todo o sentido. Seguimos, experimentando uns e outros. Curiosa para ver como vão se desenrolar as cenas dos próximos capítulos. Sobre o livro em particular, vou colocá-lo na minha já infinita lista de leituras. A ideia de chegar a um lugar e se perder nele, andando sem muitos planos e rumos é magnífica e eu faço isso sempre que posso. É uma dessas experiências que me nutrem absurdamente.